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Torneios estilo hat: considerações de um jogador que não pôde jogar

Torneios hat de ultimate frisbee são famosos em todo o mundo.
Sempre há algum disponível e reconhecido para se inscrever e participar.
Em geral as pessoas cadastram seu nível de habilidade e esperam
ansiosamente para conhecer jogadoras e jogadores com quem vão formar
um time e dividir algumas horas do ano. É sempre um mistério, mesmo
com rostos familiares. Por mais que se tente o equilíbrio, pode surgir um
time mais forte que o outro, seja lá qual for o motivo. É um modelo de
torneio que gosto muito.

Tive o privilégio de participar de dois torneios como capitão,
ajudando e sendo ajudado a organizar os times. Tive também o privilégio
de ser sorteado com jogadoras e jogadores incríveis. Foi muito gratificante
poder estar em campo tendo que a cada ponto tentar lembrar dos nomes,
das características e preferências de cada um. Nem sempre há tanta gente
a conhecer porque nossa comunidade é pequena e quase sempre vamos
ter alguém conhecido no time.

Este ano foi diferente. Participei do torneio, mas sem entrar em
campo, sem tomar parte da dose de ansiedade e adrenalina do sorteio e
sequência de jogos. Apesar disso, pude absorver algumas informações
que gostaria de compartilhar e refletir.

Um torneio hat é para ser aproveitado por todos, porém, nem sempre
isso se concretiza. Pode ser por falta de conexão, falta de sorte, falta de
coragem, falta de experiência, falta de tato, falta de perna, falta de relógio
com a hora certa ou qualquer outro motivo. Penso que algumas coisas
podem mudar para garantir que todos saiam satisfeitos e com novas
aprendizagens.

Em torneios por sorteio, quem tem mais experiência de jogo deveria
se preocupar mais em construir do que competir. A construção bem feita
vai além das vitórias e glórias. A competição deve estar presente, mas não
em detrimento das relações pessoais, dos ensinamentos e do
divertimento. Competição e diversão andam de mãos dadas, mas uma
pode minar a outra. Deve haver um equilibrio.

O modelo de competição pode ser repensado a partir do ajuste do
objetivo do torneio. Gostaria de ver um torneio que garanta que todos
joguem com todos os times, dando oportunidade para grandes testes e
interações. Claro que a competição faz com que jogadores ultrapassem
seus limites, mas também faz egos fortes tomarem conta e jogadores
menos “experientes” serem esquecidos. Questiono se há mesmo
necessidade de haver uma “grande final”, uma vez que num hat considero
mais importante aprender a conviver com as diferenças, aprender em
conjunto com todos, aprender mais sobre si mesmo, conhecer novas
possibilidades em campo, divertir-se, desenvolver e treinar novas
habilidades.

Novatos costumam ir pela novidade, pela vontade de testar as
habilidades e conhecer o esporte. Experientes, em alguns casos, parece
que vão para provar que são bons ou para testar se conseguem fazer o
time rodar. Se os mais experientes fossem com outra mentalidade, tudo
poderia ser melhor. Se forem pensando em criar pontes ao invés de provar
pontos, experientes podem mostrar aos novatos todo o amor que tem pelo
disco voando e permitir que também se apaixonem, que levem adiante o
prazer de competir com diversão.

O grande desafio que tive como capitão em torneios hat foi o de
encontrar o melhor de cada um e tentar gerar conexão entre todos.

Muito mais do que vencer, o prazer veio em ver o sorriso estampado mesmo
depois das derrotas. Os sorrisos seriam maiores na vitória? Provavelmente
sim, ninguém gosta de perder, porém, mais vale uma positiva reflexão
sobre uma experiência do que a experiência por si só. Laços de amizade
são mais duradouros do que os laços de medalhas penduradas no
pescoço.

Como sugestões finais deixo as seguintes (que podem ser utilizadas
ou não):

  •  JOGADORES reflitam sobre seus pontos fortes e fracos e se
    inscrevam de acordo com isso. Os sorteios serão melhores e os
    times mais equilibrados se vocês não subestimarem ou
    superestimarem suas capacidades (peça ajuda caso entenda que
    não compreende como classificar suas capacidades);
  •  ORGANIZADORES, não façam mudanças nos níveis dos jogadores,
    se vocês os conhecem, entrem em contato com esse jogador ou
    jogadora e reflitam sobre a necessidade de alterar seu nível, pode
    ser que alguém esteja machucado ou tenha que jogar menos;
  • ORGANIZADORES, pensem mais na garantia do jogar com mais
    times diferentes do que uma grande final entre times que já se
    enfrentaram;
  • JOGADORES NOVATOS, apareçam de mente aberta, a grande
    maioria dos jogadores mais experientes vai te mostrar que esse
    esporte é maravilhoso;
  • TODOS arrisquem fazer coisas ou jogar em posições que não estão
    acostumados, ousem descobrir uma nova habilidade, ouçam as
    novidades e tragam novidades para os outros;
  • JOGADORES EXPERIENTES, apareçam mais preparados para
    ensinar e compartilhar sua paixão do que mostrar que você sabe
    fazer um lance bonito;
  • TODOS, vitória nem sempre é sinônimo de alegria e derrota nem
    sempre é sinônimo de tristeza. Busquem romper limites e competir
    dando seu melhor, sempre pensando que do outro lado há outro ser
    humano como você que não depende do frisbee para viver e quer
    estar inteiro, fisica e mentalmente, para voltar à rotina na semana
    seguinte.

Quero voltar a participar de torneios Hat. São eles que renovam a vontade
de treinar cada vez mais para, antes de tudo, ser uma pessoa melhor e
levar os aprendizados para além do campo. Não quero ser utópico, o
mundo real não é assim tão lindo e compreensível. O esporte pode ser
maravilhoso e pode ser terrível. Vou fazer a minha parte e tentar
influenciar positivamente todos que estiverem à minha volta.

“Demasiada sanidade pode ser loucura, mas a maior loucura de todas é
ver a vida como ela é e não como poderia ser” – Miguel de Cervantes

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